O brasileiro que inventou o rádio  
             
 

 

No século XIX, dois anos antes do italiano Marconi, Roberto Landell de Moura realizava experiências de transmissão de som sem fio em São Paulo

Graziella Beting
Acervo Luiz Netto / MLM
O religioso brasileiro, pioneiro das telecomunicações no país e no mundo
No dia 3 de junho de 1900, a avenida Paulista presenciou uma cena que deveria ter entrado para a história. Ali, um padre metido a cientista reuniu a imprensa, políticos e personalidades para demonstrar publicamente os experimentos que já realizava havia mais de seis anos. Utilizando um aparelho inventado por ele mesmo, o pároco enviou sinais telegráficos e transmitiu a voz humana a uma distância considerável (8 km), sem o auxílio de fios e irradiada por uma onda eletromagnética, pela primeira vez na história. Enquanto isso, o homem que ficaria conhecido como o inventor do rádio, o italiano Guglielmo Marconi, só operava com a transmissão e recepção de sinais telegráficos – em distâncias bem menores.

Na época, cientistas do mundo inteiro pesquisavam uma maneira de cruzar as três grandes descobertas relativas à comunicação a distância: o telégrafo elétrico (1837), o telefone com fio (1876) e a radiação eletromagnética (1888). O italiano Marconi ficaria com a fama – e o Nobel de Física – de ter realizado o feito. Mas o cruzamento de documentos e correspondência do período revela que, antes de Marconi, o padre gaúcho Roberto Landell de Moura (1861-1928) já tinha desenvolvido o telégrafo sem fio, o telefone sem fio e o transmissor de ondas “landellianas”, como defendem alguns (e não “hertzianas”).

Para tentar corrigir o que avaliam ser uma injustiça histórica e alçar o brasileiro ao rol dos grandes inventores, um grupo de pesquisadores e radioamadores fundou o Movimento Landell de Moura (MLM). No fim do ano passado, o matemático Luiz Netto, o jornalista Hamilton Almeida e os radioamadores Alda Niemeyer e Daniel Fiqueiredo colocaram no ar um site, angariando assinaturas para pedir ao governo brasileiro que reconheça oficialmente o padre como pioneiro das telecomunicações.

Assim como Santos Dumont é chamado de pai da aviação, o movimento defende que o gaúcho seja reconhecido como inventor do rádio. A campanha vai até 21 de janeiro de 2011, quando o padre completaria 150 anos.

As descobertas do sacerdote-inventor foram divulgadas pelos principais jornais na época, mas ele não conseguiu nem patentear nem produzir comercialmente seus inventos no Brasil. Entre os aparelhos que desenvolveu ou projetou estão o “teletíton” (telégrafo sem fio), o “teleauxiofone” (telefonia com fio, microfone e alto-falante), o “transmissor de ondas”, o “edífono” (purificador de voz) e o “caleofone” (intercomunicador de voz).
Acervo Luiz Netto / MLM
Um dos documentos do US Patent Office que comprovam o registro dos inventos de Landell de Moura nos EUA
Frustrado com a pouca receptividade de suas descobertas no Brasil, o padre partiu para os Estados Unidos, onde registrou, em 1904, as patentes de três de seus inventos: o transmissor de ondas, o telégrafo sem fio e o telefone sem fio.

Para Luiz Netto, “Landell demonstrou, por meio de seu transmissor de ondas, que se podia transmitir a palavra humana articulada via ondas eletromagnéticas, enquanto Marconi se concentrava somente em transmissão dos símbolos alfanuméricos através da telegrafia”. O italiano, portanto, não se ocupou da transmissão da fala. “São inventos distintos. Por isso, quando se pergunta quem foi o inventor do rádio, é necessário que se faça outra pergunta: de qual rádio estamos falando?”

Na edição de 12 de outubro de 1902, o jornal americano The New York Herald dedicou uma reportagem ao padre-inventor. A matéria relatou suas experiências na telefonia sem fio, apresentada como uma novidade perseguida pelos cientistas em uma época em que a telefonia convencional (com fios) já estava dominada.

Na entrevista ao jornalista americano, Landell de Moura declarou: “Eu gostaria de mostrar ao mundo que a Igreja Católica não é inimiga da ciência ou do progresso humano”. O clérigo também revelou que suas crenças o levaram a ser perseguido por seus pares. “No Brasil, um bando de supersticiosos, acreditando que eu tenho um pacto com o diabo, invadiu minha sala de estudos e destruiu todo meu aparato”, contou. “Eu sei como se sentiu Galileu Galilei.”
 
 

Roberto Landell de Moura.

 

O padre Roberto Landell de Moura faleceu de tuberculose, aos 67 anos, em 30 de junho de 1928. Em uma cama do Hospital Beneficência Portuguesa, em Porto Alegre (RS), sua cidade natal, era quase um anônimo. Oitenta e cinco anos depois, no entanto, sabe-se que jazia ali não apenas um homem da fé, mas também da ciência: suas contribuições permeiam os avanços da telecomunicação até hoje.

As descobertas do padre, ordenado sacerdote católico em Roma, em 1886, levam seu nome a figurar entre os precursores do rádio, meio de comunicação dominante na primeira metade do século passado. Mas os méritos do cientista brasileiro vão muito além.

De acordo com Luiz Artur Ferraretto, doutor em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o inventor desenvolveu uma tecnologia wireless (sem fio) que serviu de base para o rádio e hoje é empregada em diversos equipamentos que usam radiofrequência, desde walkie-talkies até satélites artificiais no espaço. “Toda a tecnologia na qual estamos imersos tem o dedo do padre”, diz.

Para Ferraretto, Moura não descobriu o rádio. Ele entende que o cientista brasileiro, o italiano Guglielmo Marconi (a quem a invenção do rádio é atribuída) e vários outros pesquisadores não estavam tentando inventar o aparelho, mas queriam desenvolver mensagens à distância por ondas eletromagnéticas. “Eram mensagens entre dois pontos, uma comunicação ponto-a-ponto, e rádio é comunicação ponto-massa”, explica.

Demérito à obra de Moura? Não na visão de Ferraretto. “Ele não tinha como inventar o rádio, pois ninguém estava pensando em inventar um meio de comunicação”, justifica. Para o professor da UFRGS, o padre desenvolveu a tecnologia de transmissão sem fio, da qual faz parte também o rádio, e o fez sob condições totalmente adversas, o que torna seu trabalho ainda mais louvável.

Limitações 
Moura enfrentou grandes limitações financeiras inerentes ao Brasil da época, diferentemente de outros pesquisadores, como o próprio Marconi. Sua vinculação à Igreja Católica também não lhe trouxe benefícios científicos. Ao contrário, o padre chegou a ter seus equipamentos destruídos por quem não aceitava seu trabalho e o definia como louco.

Considerado o principal estudioso sobre o padre Landell de Moura, o jornalista Hamilton Almeida, com quatro livros publicados, descreve, em “Padre Landell de Moura - Um herói sem glória” (Editora Record), uma passagem que resume com precisão a desconfiança enfrentada pelo cientista.

Conforme conta o jornalista, Moura queria provar que era possível transmitir de um barco a outro em alto mar. Para isso, precisaria de dois navios da Marinha. Em contato com um emissário do governo, foi questionado sobre qual distância deveria deslocar-se a embarcação. Confiante em seu trabalho, o padre respondeu que pouco importava, pois seu sistema permitiria a transmissão de mensagens até para outros planetas. Com base nesse depoimento, Moura não obteve auxílio. Foi tachado como um perturbado que queria contatar seres extraterrestres.

Apesar de todas as dificuldades, o padre conseguiu transmitir voz à distância, embora ela não fosse muito compreensível. Com INVESTIMENTOS e maior aporte financeiro, aposta Ferrareto, o cientista chegaria a uma tecnologia de qualidade, pois, de fato, era um visionário. “Ele desenvolveu uma tecnologia que no resto do mundo estava sendo tentada”, afirma.

Para ele, as contribuições do padre à ciência persistirão. O professor considera que o futuro do rádio passa pela comunicação móvel, seja pelo celular ou por qualquer aparato portátil que o substitua em termos de transmissão de voz e imagem. O que Roberto Landell de Moura buscava era justamente isto: dar mobilidade à comunicação. “Em qualquer lugar, qualquer instante, as pessoas podem se comunicar. Era isso que ele estava desenvolvendo”, conclui.

Patentes 
Landell de Moura possui três patentes adjudicadas nos Estados Unidos e outra no Brasil. Em território americano, em 1904, patenteou o transmissor de ondas (precursor do rádio transceptor), o telefone sem fio e o telégrafo sem fio.

O primeiro registro parte da experiência que realizou em 3 de junho de 1900, quando transmitiu a própria voz de um ponto a outro da cidade de São Paulo, a uma distância de oito quilômetros. Patenteado nos Estados Unidos como Wave Transmitter, tinha a finalidade de transmitir a palavra humana articulada, sem auxílio de fios, por ondas Hertzianas.

Suas descobertas em radioemissão e telefonia por rádio ocorreram antes mesmo de outros inventores transmitirem sinais de telegrafia por rádio. Em 9 de março de 1901, Moura já havia patenteado a descoberta no Brasil, descrevendo a invenção como um aparelho capaz de projetar pelo espaço a voz a distâncias bem regulares. Também indicou seu funcionamento em qualquer clima: com sol, chuva, umidade ou forte neblina. Por fim, sugeriu que, no mar, em condições de cerração e em regiões calmas, o aparelho poderia prestar ótimos serviços.

Imagens 
As experiências do cientista não ficaram restritas à radiofonia. Ele previu o desenvolvimento da tecnologia para a transmissão de imagens e, por isso, passou a ser considerado também como precursor da televisão.

Outra descoberta importante ocorreu no campo da bioeletrografia. Ele criou uma máquina que fotografava um halo luminoso em torno do corpo humano, de plantas, de animais e de objetos inanimados. Também realizou experimentos científicos com a tecnologia. Apenas 32 anos depois, o soviético Semyon Kirlian apresentava o mesmo efeito, que acabou batizado com seu sobrenome. Tratava-se de uma imagem fotográfica obtida a partir da energia não visível aos olhos e que circunda todos os seres vivos.

No fim, o termo bioeletrografia acabou sendo adotado. E o padre Landell de Moura, no ano 2000, confirmado como seu inventor. Era mais um reconhecimento tardio entre tantos que marcaram a vida e a obra de um dos maiores cientistas brasileiros da história.